sexta-feira, dezembro 05, 2008

Não sei porquê este exagero sobre o ensino....

Hoje, sexta-feira, apetecia-me faltar à escola.

Nada que não seja de esperar, afinal sou professora e, como muito bem se sabe, pertenço a uma classe que não faz, nem nunca fez nada! Nós, os professores, gostamos é de fazer greves, porque não queremos ser avaliados, manifestações que prejudicam o trânsito de Lisboa, chateiam toda a gente e só servem para causar incómodos às pessoas que, coitadinhas, nem percebem o porquê desta parvoíce nossa. Afinal elas, as pessoas, também são avaliadas nos seus empregos, não percebem porque é que nós, os professores, não queremos ser avaliados.

Primeiro era esta avaliação que estava errada. Agora, a ministra até veio dizer que a avaliação podia ser simplificada, as escolas e os professores é que complicam tudo, não percebem, nem sabem fazer as coisas simples, são uns complicados. Nós, os complicados, confusos e ignorantes professores que não percebemos, mesmo assim fizemos uma greve que só pode ter tido um único motivo por trás: Chatear as pessoas!

Coitadinhos dos pais, chegaram tarde aos empregos, veja-se lá que alguns até tiveram que levar os filhos de quinze anos, de carro, para casa! E atrasaram-se! E agora? Quem lhes paga o tempo perdido? São esses incompetentes dos professores? Não são, pois não?
Veja-se lá se cabe na cabeça de alguém, os pais terem que esperar mais do que um quarto de hora para que da escola lhes dissessem se o professor que dava aula ao seu filho daí a quatro horas estava ou não estava a fazer greve! Isto não é possível! Os parvos dos professores não avisaram os alunos, nem os encarregados de educação de que iam fazer greve. Isto não pode ser!

Por nossa causa, a pobre da ministra, foi chamada à Assembleia da República. Veja-se bem! E esses deputadozecos, que não sei para que servem, outra cambada de incompetentes que só servem para gastar dinheiro ao Estado, tiveram a lata de a questionar, de pôr em causa a decisão de não suspender esta avaliação. Ela até já reconheceu que a avaliação tem coisas erradas, já disse que pode e deve ser simplificada. Até disse, vejam bem, que os professores avaliadores agora só precisam de ser avaliados pelo Conselho Executivo, diminui imenso a burocracia do processo. Não percebo o que é que nós, os professores, não percebemos. Mas vou tentar explicar aquilo que acho que percebo.Tem que ser de uma maneira muito simplista porque, como professora, não tenho competência para mais, obviamente!

Eu tenho (faz de conta), 42 anos, dezoito anos de serviço, uma média de catorze valores no meu curso e tive sempre horários completos de 22 horas lectivas. Dei durante esses anos, todas as disciplina existentes no meu grupo, do 7º ao 12º anos. Preparei alunos para todo o tipo de exames de escola ou exames nacionais.

Tu (faz de conta) também tens, 42 anos, fazemos anos no mesmo dia, vê lá. Tens dezoito anos de serviço, a tua média até é igual à minha mas, estavas numa escola mais pequenina do que a minha. Não se conseguia ter horários completos para ti. Então todos os anos tiveste, 15 horas lectivas, uma direcção de turma (faz mais 2 horas) e 5 horas de cargos para completar o teu horário de 22 horas. Foste coordenadora de grupo, sub-coordenadora de grupo, directora de instalações, vice-presidente do Conselho Executivo, assessora do Conselho Executivo, Presidente do Conselho Pedagógico, coordenadora do 3º ciclo no nosso grupo disciplinar e outros que agora já não me lembro. Nunca tiveste que preparar alunos para qualquer tipo de prova final de escola ou nacional.

Concorremos as duas a professoras titulares. Espanto, os cargos dão pontos, tu entraste e eu não. Obviamente que, como a Ministra diz, esse facto confere-te muito mais competência do que a mim! Obviamente, que tu, durante o teu percurso como professora demonstraste ser uma professora de élite, bem preparada, com capacidades extraordinárias que te vão, agora, permitir progredires até atingires o topo da carreira de Professor Titular. Também é claro como água, que eu não demostrei nada disso ao longo do meu percurso. A minha competência como professora ainda é duvidosa depois destes anos todos. E, por isso, como muito bem a ministra diz, eu tenho que ser avaliado pelo Conselho Executivo, tal como tu mas, apenas eu, incompetente até dar provas em contrário, serei avaliada por ti! Acho que já percebi!!!.... Claro que a Ministra tem razão!

Mas há uma coisa que continua a confundir-me. Todos me dizem que nos seus trabalhos são avaliados, principalmente no que se refere aos resultados. A Ministra também me diz que me quer avaliar relativamente aos resultados. Como é que funciona nos vossos empregos? Sabem, é que para nós, os professores incompetentes que têm medo da avaliação, avaliar os resultados significa várias coisas. A saber:

- Abandono escolar (eu sou responsável por todos os alunos que, inscritos nas minhas turmas no início do ano, abandonam a escola. Aqui, no meu caso específico, encontram-se as dezenas de formandos do Ensino Nocturno EFA - Educação e Formação de Adultos, do Programa Novas Oportunidades, que se inscrevem e se mantém na escola apenas e até terem acesso à password que lhes permite comprar um computador portátil por 150 euros! Não posso progredir na carreira porque não soube manter estes formandos na escola!) Qual é o parâmetro da vossa avaliação equivalente a este? Elucidam-me, por favor.

- Resultados esperados dos alunos (Aqui leia-se: Ao fim de cerca de um mês de conhecer os meus alunos, tenho que pôr nos meus objectivos a percentagem de sucesso esperada, face ao conhecimento, com certeza, muito profundo que eu já adquiri deles. Essa percentagem não percebo como se faz. Sabem, é que eu sou uma professorazeca incompetente, desabituada do trabalho e, não percebo como é que eu, ao fim de um mês, consigo calcular quem vai passar e quem vai chumbar, quem vai ficar e quem vai abandonar a escola. E se essa percentagem é possível obter ao fim de um mês, então porque é que passamos mais oito meses a dar aulas? Só pode ser para gastar dinheiro dos contribuintes. Noutro emprego qualquer, obviamente que o aluno transitaria imediatamente para o nível seguinte!) Como são avaliados os resultados nos vossos empregos? Como são feitos os parâmetros para avaliar os resultados nos vossos empregos? Elucidam-me, por favor.

E mais, muito mais.... mas isso sou eu que sou torta, professora dum catano!!!

Nós devíamos era ir todos para a rua. Professores, titulares ou não. Não dizem que há por aí tanto professor desempregado? Pois bem, ponham esses incompetentes, complicados, grevistas no olho da rua para verem como é que a vaca tosse. Contratem os desempregados, saem muito mais barato ao Estado. Eram mais de 120 000 novos empregos. Muitos deles primeiro emprego. Bruxelas haveria de gostar destes números de aumento de emprego em plena crise. E com a facilidade com que se molda a estatística no Governo, o número dos professores desempregados, facilmente se transformariam noutra coisa qualquer que não teria que ser contabilizado. Portugal passaria com certeza a ser olhado como exemplo pelos outros parceiros da União Europeia.

Nós, os professores, merecemos mesmo tudo aquilo que dizem de nós porque NÓS, não queremos ser avaliados! Estamos há anos a roçar o rabo pelas paredes e já não sabemos fazer outra coisa. Trabalho que é bom, façam-no os outros, os pais deste país, que coitados, são tão prejudicados por nós.

Aliás a crise também é culpa nossa, só pode. O Governo é que ainda não fez uma reunião extraordinária para atribuição formal de culpas.

3 comentários:

pikenatonta disse...

E quem fala assim não é gago!!!

Grande post, sim senhora!!

Bêjos ***

Loca disse...

Olha minha Tânia. Hoje passei o dia a pensar em ti. Preciso mesmo de te ir ver, tenho tantas saudades.
Beijinhos, pikena.
:))

Ana Omelete disse...

Um post que chama a atenção!

P.S:Não é foto.. é um vídeo
Não consegues ver Loca? Verifica se tens os plugins (Creio que é java..) para visualizar. Beijinhos!